21.8.14

Adaptação Psíquica: O Ambiente


Qualquer que seja, porém, a natureza da mediunidade o trabalho de desenvolvimento deve sempre começar por um período prepara tório que denomino, à falta de melhor termo — adaptação psíquica.

Todo médium de prova é, em regra geral, um indivíduo per turbado, nos primeiros tempos, porque ele, por si mesmo, é um Espí rito faltoso e a prova a que se submete é de resistência e de combate a elementos espirituais inferiores, correspondentes às próprias faltas.

A encarnação, aliás, não se dá para. que o indivíduo repouse, tenha bem-estar, ou comodidades, mas unicamente para que lute, se renove e moralmente evolua.

A mediunidade, nestes casos, começa mesmo a se manifestar, desde o início, na forma de perturbações de variada natureza, tanto físicas como psíquicas.

Moléstias de toda ordem, que resistem aos mais acurados tratamentos; alterações físicas incompreensíveis, de causas impalpáveis, que desafiam a competência e a argúcia da medicina; complicações as mais variadas, com reflexos na vida subjetiva, que a medi cina descarta impotente, para o campo do vago-simpático, que deve então arcar com a paternidade de toda uma sintomatologia complexa e indefinível de nervosidades, angústias, depressões; ou alterações, já do mundo mental, como temores, misantropia, alheamento à vida, manias, amnésias, etc.; ou ainda perturbações mais graves que requerem isolamento em sanatórios.

O certo é que no fundo de todas estas perturbações e numa ampla proporção existe sempre esse fator — mediunidade — como causa determinante e, portanto, passível de regularização.

E declare-se desde já que todas estas anormalidades, nesse estado inicial, são próprias das circunstâncias e justamente ocorrem para porem em evidência,chamar a atenção do indivíduo para sua condição de médium e que, no caso em que as advertências não são levadas em conta, por ceticismos, ignorância, preconceitos sociais ou religiosos, vão crescendo de vulto e de intensidade,
podendo levar o indivíduo a extremos realmente lamentáveis.

Por outro lado os perturbados, na maioria dos casos, vêm de outras seitas ou do materialismo e necessitam de um período pre paratório, durante o qual tomam contacto com a nova situação, com a doutrina, com os protetores espirituais, etc.,antes de passarem ao desenvolvimento propriamente dito. Dai a necessidade imperiosa dessa fase de adaptação psíquica.

* * *

Esse período preparatório, pois, visa, justamente promover o equilíbrio geral,orgânico e psíquico, disciplinar a causa perturbadora e dar ao médium um certo e inicial autodomínio, harmonia e serenidade internas.

* * *

A mediunidade de prova, como já vimos, tem fundas re flexões no organismo físico e mesmo quando, pela violência das manifestações ou por sua antiguidade, tenha sido o organismo le sado, o tratamento beneficia o médium, restabelecendo a função dos órgãos ou no mínimo restringindo os efeitos das perturbações.

* * *

Mas, quais os agentes dessas perturbações?

Todos o sabemos: defeitos morais próprios e influências diretas e indiretas de forças e entidades espirituais inferiores, ligadas ao caso pessoal, e que assim cumprem também seu papel como elementos cooperadores que são, mesmo quando inconscientes, dos protetores individuais e das entidades responsáveis, que dirigem os homens e os mundos na sua elevada tarefa de executores das leis divinas.

Necessário é, pois, que se inicie logo o devido tratamento cujos principais fatores são: o ambiente, a corrente e o tratamento direto, que pode ser resumido nos passes, nas radiações, no escla recimento e na evangelização pessoal.

Examinemos cada um deles separadamente.

*O Ambiente*

Referimo-nos tanto ao ambiente individual, à atmosfera diga mos assim, em que vive o médium, como ao das reuniões que frequenta.

O ambiente individual deve ser criado e mantido pelo próprio interessado tanto quanto possível. Cada um de nós vive dentro de seu próprio mundo, carrega-o consigo e alimenta-o constante mente com seus próprios pensamentos e atos; e o conjunto desses mundos individuais forma o mundo exterior coletivo, que é o palco onde todos se movem e representam os mais variados papéis.

Cada um vê, sente e compreende esse mundo exterior de certa forma, segundo sua própria capacidade de ver, sentir e compreender, e segundo o modo por que reage às suas influências.

O médium tem de formar para si um mundo individual bem equilibrado e harmônico, bem claro e bem metódico, onde as coisas materiais e espirituais estejam inteligentemente reguladas, cada uma no seu devido lugar, exercendo sua ação no devido tempo, sem atropelo e sem predominâncias arbitrárias.

Por efeito de sua própria mediunidade há nele forte tendência de se deixar empolgar pelas coisas do campo espiritual, com desprezo do mundo físico; porém, nesse período preparatório, quando se busca antes de mais nada o equilíbrio, é necessário evitar esses arrastamentos, para que possa continuar a cumprir, normalmente, seus deveres e compromissos materiais.

Esse equilíbrio ele tem que obtê-lo, tanto no seu íntimo como em sua vida doméstica e social e, por isso, desde o inicio, deve se traçar um programa de ação e se sujeitar a regras judiciosas que correspondam às suas próprias necessidades.

E são também indispensáveis, desde logo, a alternância criteriosa de esforço e de repouso, recreações de ordem elevada e contatos amiudados com a Natureza, que é fonte inesgotável de elementos recuperadores, harmonizadores. Somente quando adqui rir harmonia em si mesmo poderá ele vibrar em concordância com as coisas divinas.

Percebe-se, pois, do que fica dito, que. deve fugir das coisas que ofendem a sensibilidade, deprimem e irritam o espírito; das frivolidades que relaxam as energias morais; dos espetáculos onde as paixões inferiores se desencadeiam freneticamente.

Precisa, por outro lado, criar um ambiente doméstico favorável, pacífico fugindo a discussões estéreis e desentendimentos e sofrer as contrariedades inevitáveis com paciência e tolerância evangélicas.

Como pai, como irmão ou como filho mas, sobretudo como esposo, deve viver em seu lar como um exemplo vivo de pacificação, de acomodação, de conselho e de boa vontade. Não esqueça que, em sua qualidade de médium de prova, ainda não desenvolvido ou, melhor, educado, representa sempre uma porta aberta a influências perniciosas de caráter inferior que, por seu intermédio,
comumente atingem os indivíduos com quem convive.

E, quanto à sua vida social, deve exercer seus deveres com rigor e honestidade, guardando-se porém de se deixar contaminar pelas influências malévolas naturais dos meios em que se põem em contacto indivíduos de toda espécie, sem homogeneidade de pensamentos, crenças, educação e
sentimentos.

* * *

É muito difícil, nos tempos que correm, conservar o equilíbrio, manter a harmonia na vida de relação com os semelhantes, porque o mundo passa por uma transição profunda, em que todos os valores morais estão sendo subvertidos, caindo em degradação; e porque o médium, além das perturbações exteriores, que deve enfrentar, ainda possui as do seu próprio espírito, carente
sempre de virtudes sustentadoras.

Por isso tem que envidar maior esforço que o comum dos homens para viver com retidão e manter a comunhão com o invisível, porque sem essa comunhão, devidamente selecionada, purificada, não suportará o peso das coisas do mundo, nem superará seus obstáculos.

Entretanto, e por isso mesmo, recebem os médiuns maior ajuda; têm maior facilidade e assiduidade nos contatos com o invisível e, em ampla extensão, desce sobre eles a assistência do Alto desde que, bem entendido, se esforcem, orando e vigiando, para cumprir devotadamente seus deveres.

* * *

Quanto às reuniões doutrinárias que frequenta deve fugir da quelas onde as práticas e os objetivos demonstram ignorância ou superstição, porque aí encontrará forçosamente forças negativas, que a todo transe convém evitar.

Selecione, pois, as reuniões que frequenta e naquela onde sentir-se melhor,  mais agasalhado, mais amparado pelo invisível, mais sereno e confiante, mais fortificado nos seus sentimentos bons; onde sentir bem-estar espiritual, durante e após os trabalhos; na quela, principalmente, que tiver caráter evangélico e for isenta de artifícios e de exterioridades grotescas e inúteis, aí permaneça e a
considere merecedora do seu concurso.

A assistência a boas reuniões é necessária e quando isso não possa ser conseguido seja pelo estado de agitação, descontrole ou relutância do médium, ou seja por inexistência, no local, de tais reuniões — como ocorre às vezes no Interior ou no sertão — organize-se então, no próprio lar doméstico, reuniões simples e intimas, destinadas a esse fim e dirigidas por aquele que se sentir
mais capacitado para fazê-lo.

Mesmo que não se dê a essas reuniões caráter de sessão espírita como se o entende, bastará que haja uma concentração e preces, para que o médium, apoiado nesses elementos de proteção e conforto receba desde logo a necessária assistência espiritual, que nunca lhe é negada do Alto.

Em todos os casos um bom ambiente de trabalho espiritual é de capital importância.

Livro: Mediunidade
Autor: Edgard Armond

Nenhum comentário: