6.11.10

O HOMEM GENTIL E OS 40 CÃES



Ele morava em um terreno amplo, mas sem muito luxo, alas, sem nenhum luxo, ao lado de 40 cães. Como fazia todas as manhãs, saiu para tentar a vida, ao menos por aquele dia, levando consigo uma espécie de carrinho de mão, onde colocaria o produto de seu dia de trabalho.

Os 40 amigos latiam já antecipando as saudades pela ausência do amigo, que mal acabara de se afastar de casa.

O dia estava difícil, principalmente para quem trabalha autonomamente, pois a concorrência era cada vez maior, em um país, como o nosso, onde o povo passa por dificuldades financeiras sérias. Alguns de nossos políticos se gabam de sermos o país que mais recicla latas de alumínio e papel.

Realmente é muito bom que isso seja feito para poupar mais a natureza, mas indica principalmente a nossa pobreza. Pobreza essa que obriga as pessoas a revirarem os sacos de lixo para procurar o que puder ser reciclado e conseguir um sustento mínimo.

Depois de preencher o carrinho ele levava tudo o que conseguisse para um depósito de ferros-velhos que comprava material destes tipos, mas pagavam valores irrisórios.

Por pouco que fosse o valor recebido, era o seu único meio de sobrevivência. Entretanto já passava das oito horas da manhã e ele ainda não havia conseguido encontrar papéis e latas suficientes par encher o seu carrinho de mão. Por onde passava, os sacos de lixo já tinham sido revirados, as latas já haviam sido retiradas e não havia mais papéis recicláveis.

A caminhada deveria ser persistente e precisaria continuar enquanto não preenchesse todo o carrinho uma vez que somente estando totalmente repleto ele conseguiria o suficiente para receber uma compensação financeira mínima para viver.

A luta era diária e a cada dia as coisas se tornavam mais e mais difíceis, pois havia muitos outros à procura de recicláveis, assim como ele, e um emprego já não era possível porque ele não tem mais uma idade que atraia algum empregador.

Não era mais jovem, e o país estava numa fase em que os empregos estavam em escassez. O jeito era continuar a recolher papéis e latas para vender aos depósitos.

As horas passavam e a tarde estava caindo, mas o seu carrinho ainda não estava completo. Se não conseguisse preenchê-lo, seria o segundo dia consecutivo sem conseguir o seu meio de vida. Ele não estava conseguindo encontrar recicláveis suficientes, mas estava confiante e não pretendia desistir. Mesmo exausto, continuou a abrir sacos de lixo, que encontrava, em busca de algo aproveitável.

Passando perto de uma rua deserta, encontrou vários sacos intactos. Que sorte! Ninguém ainda tinha revirado aquele lixo. Era possível que encontrasse o suficiente para salvar o dia. Ao se aproximar encontrou um grande saco repleto de papéis e outro de latas de alumínio. Que ótimo!

Enquanto recolhia o seu material reciclável, notou um ruído, que o fez desviar sua atenção.

O som vinha de perto como se houvesse outra pessoa mexendo nos sacos próximos de onde ele estava. Mas não havia ninguém. Ele estava só. Curioso, olhou ao redor, porém o ruído cessou e ele voltou ao seu trabalho de busca às suas latas e papéis. Entretido com sua atividade, voltou a perceber que o ruído retornara, parecia vir da sua direita. Certamente não era uma pessoa e nem vento, pois não estava ventando também. O ruído parou novamente e pensou: "O que será que está fazendo este barulho?".

Deixando o que fazia, ele ficou ainda mais curioso e resolveu seguir o som para tentar descobrir o que era. Notou que um dos sacos se movia e produzia aquele som. Para sua surpresa ao abrir o saco de lixo repleto de restos de cozinha e de todo tipo, encontrou um filhote de cão sem raça agonizando, quase sufocando.

O filhote não deveria ter mais do que vinte ou trinta dias. Rapidamente retirou-o dali e soprou em sua face para reanimá-lo, mas o pequeno parecia muito fraco e, quase desfalecido, mal podia respirar. Continuou a soprar e limpou sua boca e focinho, retirando sujeiras que estavam aderidas e liberou a sua respiração.

Aquele senhor não mais pensou nas suas buscas e abandonou o que fazia, acomodou o pequeno em seu carrinho e se afastou dali, daquele beco isolado.

Depois de muitos quarteirões, chegou ao terreno abandonado onde vivia. Imediatamente uma comitiva de cães o recepcionou com um coro de latidos desencontrados, mas felizes pelo retorno do querido amigo.

Mais do que depressa, correu para um local coberto onde ele guardava seus pertences e retirou uma tina com água que pretendia usar para lavar o filhote. Era a água que ele tinha para sua higiene pessoal. Procurando aquecer o filhote abandonado, ele acendeu uma fogueira para esquentar a água antes de lavar o pequeno. A aparência do cãozinho era consternadora e o odor de lixo era forte. As feridas abertas estavam infeccionadas.

Com todo cuidado o homem mergulhou o filhote na água e limpou suas feridas.

Ao seu redor se reuniram dezenas de cães silenciosos, que observavam o trabalho cuidadoso, parecendo desejar boa sorte ao filhote abandonado. Todos o observavam e esperavam como se quisessem saber se o pequeno ficaria bem. O silêncio respeitoso continuou até ser quebrado quando o tratamento emergencial chegou ao fim.

E estando limpo, o homem pegou o pequeno cão e o mostrou aos outros, que latiram, aliviados ao perceberem que o pequeno estava bem e corriam de um lado para outro demonstrando alegria por mais um companheiro que foi salvo por aquele que era o melhor amigo daqueles que chegarem ali, também, em péssimas condições.

Quase todos se aproximaram para saudar o mais novo membro da família. Estando limpo ele fez um sinal a uma cadelinha sem raça, magra, mas saudável, que ainda mantinha suas mamas cheias de leite, pois amamentava.

Sem resistência alguma, a cadelinha se achegou e se deitou ao lado com a barriga para cima, oferecendo seu leite ao filhote. Imediatamente o senhor colocou o filhote em contato com as tetas magras. O filhote estava ávido e sugava sofregamente o leite que vinha abundante em sua pequena boca.

Por alguns minutos todos ficaram assistindo àquela cena até que o pequeno adormeceu, satisfeito. Sabendo que a cadelinha era boa mãe e que cuidaria do filhote como se fosse seu, ele retornou ao seu trabalho de coleta. Ao final do dia conseguiu recolher latas e papéis suficientes para comprar um pequeno saco de farinha, um punhado de mandiocas e batatas. Finalmente algo para comer.

Chegando em casa ele pegou um caldeirão e acendeu a fogueira para cozinhar o que conseguiu. Depois de alguns minutos a mistura estava pronta.

O mingau estava pronto para ser servido. Com máximo cuidado distribuiu a comida para cada um dos animais que estavam sob seus cuidados e todos aguardavam pacientemente.

Depois que todos tinham sido servidos, ele se serviu. Este é um exemplo de alguém que não se vê como um superior aos animais e não toma-os como seus inferiores, mas os têm como irmãos.

Marcel Benedeti

bjs,


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