12.2.11

Sim,Sim-Não,Não.



No armário da cozinha, o bolo de aniversário de Lucinha, feito por mamãe, aguardava o momento de fazer-se servido.

Seria seu primeiro aninho e tudo deveria estar em ordem para que as visitas que eram esperadas às seis horas fossem bem atendidas.

Por isso, Gilberto e Gustavo, irmãos mais velhos, foram bem prevenidos: Não tirem as coisas do lugar e, sobretudo, não toquem no bolo - não toquem no bolo!

Mas Gilberto estava inquieto. Teria que esperar tanto tempo ? Por que não comê-lo de uma vez?

Volta e meia, rodeava a cozinha, pretextando qualquer coisa, na expectativa de pegar todo mundo desprevenido e. . . zás - voar no bolo.

De repente, soou a campainha da casa e ele viu que o momento chegara. Mamãe, atendendo a porta, distraiu-se. Rapidamente o armário foi aberto e a mãozinha ágil arrancara sem piedade um canto do bolo.

Acontece que Gustavo, de um canto da sala, vira o sucedido e, mais ardiloso ainda que Gilberto, correu à cozinha agora deserta, aumentou o estrago feito por seu irmão, tirando novo pedaço para si. Como o outro, tratou também de fugir.

Dentre em pouco, retorna a mamãe à cozinha, encontra o armário às escâncaras e ... quase chora de tristeza:

- Quem fez isso? Quem foi?

Gilberto, mais sincero, confessou a culpa, mas Gustavo negara haver participado. Por isso, apenas ele tivera permissão para comer doces e tomar laranjada na hora da festinha do bolo arrebentado ...

Mas ... que coisa Ccuriosa: ele não quis !

- Você está doente ? - perguntou a mamãe.

- Não estou com vontade. É só.

E olhava de soslaio, o irmão amuado.

O próprio Gustavo se achava muito esquisito .. Se ninguém viu, por que estava nervoso?

Gilberto não comera doce, a título de repreensão, e Gustavo, por causa de seus secretos arrependimentos.

Um ano se passou e tudo parecia haver retornado à calma, e Lucinha estava novamente aniversariando.

Outro bolo fora feito, agora respeitado.

Às seis da tarde, como de costume, a criançada vizinha se reunira na casa dela e mamãe partiu o bolo, um pedaço para cada visitante, um para Gilberto, que o comeu gostosamente e outro para Gustavo que ... quem diria? não aceitou, informando estar "enjoado".

Mas aguentou firme e não contou a ninguém.

Mamãe tratou logo de dar-lhe uma pítadinha de bicarbonato em um pouco d'água e tudo correu bem.

Nem no outro ano, nem no outro, nem, no outro mais, Gustavo conseguiu comer bolo.

Hoje ele já cresceu, casou-se e tem filhos que, nos dias de aniversário, comem bolos com os vizinhos.

Todos comem, menos Gustavo, que, sempre que se vê diante de um bolo, sente enjôo.

Já faz muitos anos que ele se esquecera do incidente da infância, mas do enjôo, nunca mais ficou livre.

É isso: às vezes a gente pensa que é difícil falar a verdade.

Entretanto, mentir, é sempre muito mais difícil.

Demétrio P. Bastos

bjs,soninha


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