6.4.13

Sonambulismo, dupla vista e êxtase


Sonambulismo, a dupla vista e o êxtase constituem gradações da faculdade de desdobramento da alma ou Espírito, que possibilitam, com o auxílio do perispírito, o intercâmbio entre os planos físico e espiritual, duas faces de uma só existência.

O sonambulismo é um estado de independência da alma, mais completo do que o sonho, que permite ao Espírito maior amplitude ainda de suas faculdades. A palavra sonambulismo origina-se do latim somnus = sono + ambulare = marchar, passear. No sonambulismo, o indivíduo, embora dormindo, levanta-se, caminha, movimenta-se e pratica atos próprios de sua vida habitual com relativa segurança e perfeição, procedendo como se estivesse acordado. Entretanto, ao despertar, geralmente, o sonâmbulo não se lembra do que fez, enquanto se encontrava nesse estado.

O sonambulismo pode ser natural ou magnético. Não há diferença entre ambos, a não ser pela forma como se dão: um acontece espontaneamente; o outro é provocado, artificialmente, por meio de indução hipnótica ou magnética.

O sonâmbulo age sob a influência de sua própria alma e exprime o seu próprio pensamento. Enquanto estiver em transe, o sonâmbulo tem idéias, em geral, mais precisas do que no estado normal, seus conhecimentos são mais amplos, porque tem livre a alma, o que lhe permite o afloramento mais ostensivo de sua bagagem psíquica, acumulada durante as encarnações, e que,de ordinário, permanece abafada pelo corpo físico. Eventualmente, o sonâmbulo também pode se comunicar com Espíritos.Neste caso específico, temos no sonambulismo uma variedade da faculdade mediúnica.

O Espírito age como sonâmbulo quando, preocupado com uma coisa ou outra, necessita fazer algo, cuja prática exige a utilização do corpo físico. Gabriel Delanne (1857-1926), notável pesquisador das ciências psíquicas, narra o seguinte fato:

[...] um jovem padre que se levantava todas as noites, ia à escrivaninha, compunha sermões e tornava a deitar.Alguns de seus amigos [...] uma noite em que ele escrevia, como de costume, interpuseram um grosso cartão entre seus olhos e o papel. Ele não se interrompeu, continuou a redação, e, terminada esta, deitou-se, como de hábito, sem suspeitar da prova a que fora submetido [...]. “Quando ele terminava uma página, lia-a alto, de princípio a fim (se se pode chamar leitura a esta ação sem o concurso dos olhos). Se lhe desagradava alguma coisa, ele a retocava e fazia as correções, em cima, com muita exatidão. [...] é a visão sem os olhos. [...] isso nos provará que há nele uma força que seguramente o dirige, que age fora dos sentidos, numa palavra, que a alma vela quando o corpo dorme.

Apesar dessa desenvoltura com que o sonâmbulo age, existem riscos para ele, que podem ser prevenidos, sobretudo se for criança: evitar camas altas, instalar grades nas janelas, retirar do alcance objetos cortantes ou pontiagudos que possam ferir.

Durante o transe, o sonâmbulo pode sofrer interferência de Espíritos obsessores, por meio de técnicas hipnóticas, que influenciam no comando da atividade mecânica do seu corpo físico. Por isso, recomenda-se também às pessoas sonâmbulas, sejam adultos, sejam crianças, a oração antes do sono, com vistas a obterem a proteção dos bons Espíritos. A prática do bem, a vivência harmônica em família, à luz dos ensinos do Cristo, o Evangelho no lar, também constituem excelente terapêutica preventiva.

Seria realmente perigoso à saúde do sonâmbulo despertá-lo durante o transe? Não há nenhuma evidência científica dessa afirmativa, que encontramos no rol do imaginário popular. O mesmo cuidado que temos ao acordar o não-sonâmbulo devemos ter para despertar o sonâmbulo, mormente se este estiver em movimento. Quase todas as pessoas, ao serem interrompidas, bruscamente, em seu sono, têm como reação, num primeiro momento, o susto ou a desorientação. Se porventura nos depararmos com uma pessoa em transe sonambúlico, é recomendável direcioná-la, cuidadosamente, ao leito, sem necessidade de despertá-la, a não ser que seja estritamente necessário.

A dupla vista ou segunda vista ocorre quando o Espírito se desdobra, sem que o corpo esteja adormecido. Nesse estado, a pessoa vê, ouve e sente além dos limites dos sentidos humanos, podendo, até mesmo, ter pressentimentos. Durante a ocorrência do fenômeno, o indivíduo, embora consciente, apresenta um estado físico alterado, com o olhar vago, como se olhasse sem ver.

A faculdade, na dupla vista, é permanente, mas não o seu exercício. Nos mundos mais elevados, a dupla vista é faculdade permanente, para a maioria dos habitantes, cujo estado normal pode se comparar ao dos sonâmbulos lúcidos.

A bibliografia espírita é farta de exemplos de casos de dupla vista, como os relatados por Kardec em A Gênese: Entrada de Jesus em Jerusalém; Beijo de Judas; e Vocação de Pedro, André, Tiago, João e Mateus.7 Outro exemplo clássico é o relatado pelo astrônomo e escritor espírita francês, Camille Flammarion (1842-1925):

“O professor Boehm, que ensinava matemáticas em Marburg, estando uma noite com amigos, teve de repente a convicção de que devia regressar à sua casa [...] Chegado à sua morada [...] sentia-se obrigado a mudar o seu leito de lugar. Por mais absurda que lhe parecesse esta imposição mental, entendeu que a devia cumprir, chamou a criada e com auxílio dela colocou a cama do outro lado do quarto. Feito isto, ficou satisfeito e voltou para junto de seus amigos e acabar o serão. Despediu-se deles às dez horas, voltou para casa, deitou-se e adormeceu. Foi despertado, durante a noite, por grande fragor e verificou que grossa viga tinha desabado, arrastando uma parte do teto e caindo no lugar que o seu leito havia ocupado.”

A segunda vista acontece, com mais freqüência, de forma espontânea do que por efeito da vontade, porém, é suscetível de desenvolver-se pelo exercício ou diante de certas circunstâncias que põem em perigo as pessoas, como no caso de crises, calamidades e grandes emoções. É a Providência Divina sempre a nos oferecer meios de nos proteger e de nos fazer superar as dificuldades do caminho.

O êxtase é a emancipação da alma no grau máximo, sem, todavia, poder ultrapassar certos limites, que ela não poderia transpor sem quebrar totalmente os laços que a prendem ao corpo. Conforme a evolução do extático, cuja lucidez é ainda mais acentuada, ele pode vislumbrar faixas espirituais superiores, em que lhe é dado haurir de uma paz e de um bem-estar inexprimíveis.

Kardec traz um exemplo de êxtase, que sucedeu com o famoso compositor italiano de música religiosa, Pergolesi, cujo fato foi relatado pelo Sr. Ernest Le Nordez:

“Na sexta-feira santa Pergolesi acompanhou a multidão. Aproximando-se do templo, parecia-lhe que uma calma, há muito desconhecida para ele, se fazia em sua alma e, quando transpôs o portal, sentiu-se como que envolto por uma nuvem ao mesmo tempo espessa e luminosa. Logo nada mais viu [...] e ouviu como um concerto longínquo de vozes melodiosas, que insensivelmente dele se aproximava. [...] “Mas, enquanto sua alma, arrebatada no êxtase, bebia a longos sorvos as harmonias simples e celestes desse concerto angélico, sua mão, como que movida por força misteriosa, agitava-se no espaço e parecia traçar, mau grado seu, notas que traduziam os sons que o ouvido escutava. “Pouco a pouco as vozes se afastaram, a visão desapareceu, a nuvem se desvaneceu e Pergolesi viu, ao abrir os olhos, escrito por sua mão, no mármore do templo, esse canto de sublime simplicidade, que o devia imortalizar, o Stabat Mater, que desde esse dia todo o mundo cristão repete e admira. “O artista ergueu-se, saiu do templo, calmo, feliz e não mais inquieto e agitado.Mas nesse dia uma nova inspiração se apoderou dessa alma de artista [...].”

Esse aspecto sublime do fenômeno, porém, não isenta o extático dos dissabores da perturbação, por influência de entidades inferiores, se se deixar levar pela invigilância. Essa é uma das razões pelas quais se deve julgar com muito critério revelações espirituais que venham por meio do extático ou de qualquer outro médium.

Enfim, o sonambulismo, o êxtase e a dupla vista constituem variedades de fenômenos que repousam sobre uma mesma causa – a faculdade de desdobramento do Espírito, que se produz graças às propriedades e às irradiações do fluido perispirítico.

Como vimos pela descrição dos exemplos, a natureza espiritual do ser humano é ainda pouco estudada e, conseqüentemente, bastante desconhecida. Pesquisadores da área psicológica têm encontrado no exame desses fatos a prova irrefutável da existência e da independência da alma, derrubando mitos e superstições e levantando o véu das leis naturais que encobrem fatos até então tidos por milagrosos ou sobrenaturais.


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